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domingo, 1 de novembro de 2009

Prêmio: Blog Instigante

Esta premiação foi criada pelos blogs Osho-br e Koyanisqatsi. Recebi esse reconhecimento de Cristiana Passinato. Muito Obrigada! “O selo de reconhecimento Blog Instigante premia os blogs que, além da assiduidade das postagens e do esmero com que são feitos, provoca-nos a necessidade de refletir, questionar, aprender e – sobretudo – que instigam almas e mentes à procura de conhecimento e sabedoria.”
Indico so Blogs abaixo:

1. Bardos Remanescentes
2. Casa da Revolta
3.
Meu olhar filosófico
4.
Psicodelia Alcóolica
5. Reflexos cotidianos
6.
The wonderful Franco Fiddgins
7. Verso Torto
Regrinha para utilização do selo: Os blogs indicados acima, caso queiram usar o selo, deverão escolher – cada um – 7 blogs com as características acima descritas e deverão copiar a imagem do selo e o texto acima, adicionando-os ao espaço que convier.

sábado, 31 de outubro de 2009

O búfalo

O sangue escorria pelo ralo junto da água quente. Um caco de vidro perfurava a carne forçando um grito agudo, um sentimento ardente, um desespero quase fatal, quase insuportável. A água da torneira corria louca e o líquido detergente formava uma crosta espumante que cobria toda a pia, toda a louça suja e encardida.

Atônita, correu por todos os cantos, por todos os cômodos à procura de gaze, Mertiolate, como um bicho machucado que grita pelos cantos, foge pelos cantos, correndo estúpida e infantilmente do seu caçador. Enfim, cansada e agitada, sentou no sofá, absorta naquele rio de sangue, naquele mar de sangue que estragava sua roupa, seu carpete, seu sofá de tecido branco para combinar com os móveis escuros e com a parede azul, com as almofadas douradas, com seus lábios que mordiam em desespero, enquanto segurava com uma mão o pulso da mão cortada, fitando-a em estado de susto, de suspense, de dor. Resolveu arrancar de uma só vez o caco imenso, triangular, que perfurava a ferida de maneira covarde, indecente, primeiro vagarosa, depois, ao notar o absurdo da dor, rapidamente, como um band-aid, sem deixar de soltar um último grito de dor dilacerante.

O sentimento de sentir a mão pungente, vibrante, como se o coração estivesse no centro do machucado, como se o coração sangrasse e jorrasse aquele mar de vermelho estúpido, deixando os lábios sem cor, pálidos, ela sentada no braço do sofá branco, tão branca como o sofá, mas aliviada, aliviada com uma dor menor, com uma dor mais humana e reverberante, ao oposto daquela dor febril, surpreendente. Respirou por alguns segundos, esperando que a vivacidade a retornasse, esfregando as costas da mão sã, ainda segurando o caco, a arma, o martírio, na testa fria e suada.

Caminhou para a cozinha, tacou fora aquele infortúnio, lavou suas mãos na pia ensangüentada e espumante, agora de espuma vermelha, espuma maléfica, sem notar o péssimo estado de sua graça, de seus cabelos arrepiados e despenteados de quem acabou de acordar, em sua camisola de Piu-Piu, e resolveu lavar aquela louça suja e nojenta que deixou na noite anterior. Sentia um ódio fulminante, ódio de ter deixado a louça para lavar, ódio de ter cortado a porcaria da mão, porque esfregava com tanta raiva, com tanta indolência aquele copo maldito, aquele copo miserável, aquele copo pobre, fedido de mate, de coca-cola ou alguma asneira da qual se embebedou, um ódio mortal do sentimento de ódio, de esquecer-se das coisas básicas da vida. Borrifou algum remédio que encontrou no banheiro Tenho que fazer a porra de um kit de primeiros socorros!, enfaixou a mão de qualquer maneira e voltou aos afazeres.

Limpou toda a cozinha e terminou de fazer a tarefa entediante de lavar a louça, tarefa que nada produzia, que não a fazia superar a si mesma, que não esticava os limites do próprio ser, da própria espécie, que não criava nada novo, que não forçava do presente a criação de um futuro, de um projeto, de um plano, não tinha futuro nem plano, esses se foram embora, deixando-a desarmada e sozinha, batendo a porta ao som de seus gritos, completamente só. A camisola pouco sensual, pouco bonita, com seus cabelos arrepiados – culpa do tempo ruim -, com os pés descalços naquele rio de sangue que pingava no azulejo frio, rio que secou, que extinguiu com água sanitária, exasperavam tanto ódio, que exagerou a quantidade e fez seus olhos arderem enquanto passava o pano na pia molhada, mas limpa.

Ao terminar, sentiu-se angustiada e fitava estática para os azulejos em sua frente, para a torneira agora brilhante, para a pia limpa, os pratos e os copos reluzentes Preciso de mais copos. e cultivou um susto, uma surpresa por se sentir assim tão odiosa, assim tão inerte, como se não existisse e, de repente, viver tornara-se uma condição, uma necessidade e uma pressa. Sentia pressa em existir, pois não entendia o mundo em sua profundidade, era ela o ovo, ovo de casca quebrada, de mão cortada, de ferida angustiada que teimava em arder, em latejar, pois, sim!, latejava terrivelmente, fazia-se lembrar que existia, que era uma ferida, que a carne estava aberta, estava exposta, que a pia reluzia, que a louça estava devidamente no lugar, que os pés sentiam aquele chão frio de manhã fria, entediada, improdutiva, ferida essa que teimaria em fechar, pois nunca cicatrizou com facilidade, desde garota, desde que bateu com o queixo no chão enquanto corria de pique - esconde. Estática, não se movia, mas sua mente embaralhava com catarses e epifanias, que apareciam freneticamente, ao passo que escutava aquele pingo suave e irritante que surgia da boca da torneira, aquele pingo incontável que marcava os segundos, as horas, que teimava em lembrar que o tempo passava, mas que ela não se movia, ela não se movia, pois não era mais do que o Tempo, não superava o Tempo, não tinha filhos, não tinha mais amante, projeto, futuro, não tinha posterioridade, não superava a si mesma, não produzia, só lavava a louça, lavava o chão, enfaixava a ferida, mas não se enganava: a ferida estava lá embaixo, a carne estava exposta, ela estava nua: nua diante dos azulejos que mostravam um reflexo distorcido de seu rosto pálido e descabelado, rosto, sim, esse, o feitor de todos esses pensamentos vis e catárticos, dessas epifanias inebriantes que a impediam de se mexer, de agir, de reagir e de se conter.

Dirigiu-se mais uma vez ao banheiro, olhou estupefata para aquela imagem deprimente, aquela imagem terrível, aquele monstro do lago Ness, aquele Godzilla fenomenal, aquele ódio e aquele susto que se imprimiam em sua face e faziam uma ruga entre seus olhos. Estupefata, com a boca entreaberta para facilitar a entrada do ar que já não se dava pelas narinas, que já não ficava nos pulmões, mas que levantava e cortava o peito, ar esse frio de uma manhã fria e chão frio, frio que arranhava a garganta, que arrepiava os cabelos, que a horrorizava. Usava um rabo-de-cavalo improvisado, com centenas de fios que pulavam de sua cabeça, parecia que recebera um choque. A mão enfaixada passou a correr seus dedos finos, grandes, de unhas longas pelo lábio rachado, pelo nariz branco e de ponta gelada, pelas mechas de cabelo que fugiam de seu laço, pelos olhos pequenos diante das olheiras roxas.

Não sabia para onde correr, para onde ir e mal tinha certeza do que a olhava, e, achando que iria desmaiar, que iria perder os sentidos, tombar, cair e abrir a cabeça, Mais sangue, cair, olhando tudo rodando, vendo manchas pretas por todos os lados, apoiou-se no armário do banheiro e sentou na tampa da privada, passando a mão enfaixada pela superfície do vidro do boxe do banheiro, buscando de todas as maneiras segurar-se, conter-se, não se permitir fugir do corpo, Estou ficando louca, maníaca, repetia-se, Vou desmaiar, ai, meu Deus, desmaiar, e de fato estava para desmaiar, até que lhe acometeu respirar profundamente, fechar os lábios e obrigar que o ar entre pelas narinas, que o ar fique no pulmão, que ele se expande e assim se expande todo o corpo, dando mais espaço para a alma que teimava em fugir.

Acometeu-lhe uma série de memórias, de quando caiu e machucou o queixo – credo, que aquela dor nunca se sentisse de novo! -, pensando que é melhor essa dor do que o peso do ódio, o peso da raiva e a inércia da vida, mas que a vida ainda assim é melhor do que a morte, melhor do que ver a mãe doente na cama de hospital, com camisola de hospital, com os olhos fixos, imóveis olhando o teto, a boca completamente aberta, como quem não quer ir, como quem se recusava a partir e gritava a se ver atirada naquela luz no fim do túnel, mas já morta, sim, sentia falta da mãe, sentia falta de passos na casa, sentia falta de quando o ódio era amor e sentia amor por tudo, pelos cômodos, pelos móveis, pelo sol que reproduzia um caleidoscópio azul nas suas paredes recém-pintadas, quando se amava descontrolavelmente, quando se havia nascido para amar, para perdoar, para sentir piedade e não aquele ódio, aquele ódio pesado, dilacerante, latejante, aquela ferida desnecessária, Incrível: vive-se com uma pessoa, mostra-lhe o corpo, sua alma, seus sonhos, jura, jura por tudo que é mais sagrado que ama, e perdoa, juro que nunca foi tão feliz, para se tornar passado cotidiano, para jamais revelar que já foi sua, que já amou, deixando-a infeliz, odiosa, quebrando copos e fitando azulejos, sonhando com fantasmas, dores passadas e memórias tristes, perguntando como estão as coisas, E o trabalho?, mas há nada que se compare com esse momento solene de saudade e de raiva, de irritação. Tudo lhe desencanta e se vê diante da linearidade, da estagnação, das tarefas doméstica: mulher, Outro, eu existente que serve para que o homem, o Macho dominador e inescrupuloso encontre a si mesmo, para que ele veja, através dela, algum reflexo de seu interior, de seu fastidioso e prepotente ego, para então dizer adeus, Não está funcionando, eu preciso ir embora, entenda, não é você, não foi você, você me fez feliz, eu fui feliz, mas não sou mais, não sei quem eu sou, Eu não sei o que houve, é que, mas ele sabe bem, ele descobriu através do corpo nu, das paredes azuis, do sofá branco meticulosamente escolhido para combinar com as almofadas douradas, mas tudo isso agora é somente um túmulo, um sarcófago perfeitamente decorado, esperando que ela morra, que se desintegre, que seja tomada pela maldita dor, pelo maldito corte, por milhares, infinitos cacos que perfurem o corpo, a carne e, enfim, assassinem a alma.

Besteiras, besteiras essas que caminham pela mente inerte, sem afazeres, que tenta em vão respirar e prestar atenção somente na respiração, mas que vê em cada canto, em cada azulejo aquele mesmo reflexo idiota e ridículo, aquela mesma camisola pobre e ensangüentada, os cabelos terríveis, as feições terríveis, os olhos pequeninos. Profunda, profunda raiva do mundo que a acomete naquele banheiro, naquele cômodo apertado de toalhas floridas, com seus perfumes, sua caixa de maquiagem, seus produtos de beleza, seus produtos para que se mascare, para que nunca, jamais se revele assim para o mundo, assim tão nua, assim tão desprovida de proteção, assim tão verdadeira e aberta, ainda suja de sangue, ainda completamente ensangüentada, como se o coração tivesse se esparramado pelo chão da cozinha, transbordando todo esse tipo de sentimento e de pensamento que surgiu do nada, ou que, contidos por esse tempo todo, viram no corte uma oportunidade para se revelarem, mesmo que com pouca violência, mesmo que em doses pequenas e homeopáticas, em um copo partido, mesmo que de maneira tão prolixa, tão barata e tão suja, que ela se sentia uma Coisa, um Outro, um abismo incontrolável e dolorido, toda dolorida, era toda Dor, e toda Raiva, e toda um desperdício cósmico de tamanho colossal. Tudo culpa desse mundo cruel e maldito, mundo que teima em não rodar, em não se transformar, que acha trezentos e sessenta e cinco dias rápidos o suficiente e que não compreende a infinitude de um segundo, as proporções de um pensamento, de um fluxo terrível de pensamentos que a sacodem, acometem, como a água quente da torneira da pia e de sua espuma avermelhada.

Não, ela era um fruto do caos, um buraco negro, um ovo de casca partida, corrompida, lambuzada de sua própria gema. Tanto o que fazer e nenhuma energia para realizá-lo, nenhuma energia para levantar, pois o ódio, o búfalo senta em seu peito, impede-a de se levantar, de reagir, de se reerguer: a toma por completo, a imobiliza, corta a respiração e teima em arder, arder loucamente naquela ferida ainda viva, naquela ferida ainda acordada, ainda fresca, que manchava a gaze de vermelhidão hipnotizante. Então, aquele desejo absurdo de tombar doente, de ser ela a enferma na cama, de ser acometida por hemorragia, de fugir dessa solidão paralítica, de vê-lo lá, diante da cama, tal qual a órfã ao lado da mãe, pedindo de olhos perdão por seu egoísmo ignóbil, sua alienação perigosa que a fez um dia sentir ódio, que a fez um dia quebrar o copo, pois descobriu que pode, sim, odiar, que pode sim viver de ódio, que o ódio pode fazer com que seu mundo gire, ainda que lentamente, evitando que se tombe morta logo no primeiro adeus. Mas o ódio também sufoca, mesmo que tenha sido o ódio quem a permitiu viver, porque viver é muito, muito perigoso. Queria ela, insana, ver-se pregada em uma cama, ter aquele sentimento gentil e sutil de se ver partir e, diante da Morte e da Morte somente, redescobrir o perdão e a piedade, dar a alma toda a vazão, dar-lhe a eternidade para se espreguiçar, para se expandir e existir livremente, sem ater-se em ser o Outro, em ser o corpo, o objeto, o sexo, a nudez descabelada, a ferida latejante, o reflexo repulsivo nos azulejos.

Mas tudo isso é demais, é abundante e a realidade se apronta, bate na porta e teima em entrar. Merda! Olha a hora!, acorda de susto da mesma maneira que de susto se viu adormecida e, esquecendo-se da dor, retoma o ritmo da rotina, convencida de que, na verdade, tudo está bem.

*Releitura do conto da Clarice Lispector, "O búfalo" (que é muito bom).

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O luto

Em um vestido de cor pálida, carregava colar de pedra verde que apontava para seus seios maduros, fazendo dos meus pensamentos extensão desse decote assim tão solto, mas assim tão puro, que trazia consigo uma mecha de cabelos claros, castanho-claros, de uma cor quase cobre, lembrando-me dos cabelos de Cecília, ah!, Cecília dos meus sonhos, das minhas memórias e das minhas lembranças vindas em noites esfumaçadas pelo meu cigarro que fumo antes de dormir. Mas Cecília tinha os olhos cor de chocolate, se é que se pode chamar de chocolate os olhos de uma mulher, um chocolate meio-amargo, pois eram um castanho intenso, forte e determinado, que brilhava toda vez que sorria e eu brilhava toda vez que Cecília sorria. Não, a aparição tinha os olhos azuis, de um azul cristalino, de um azul triste, acinzentado, prostituído, se é que se pode falar de azul e não verde, e não violenta, e não cinza. Azul que nem dessas tardes chuvosas, em que a chuva banha a alma e nos afoga em melancolia, em recordações de tempos passados, tempos longínquos, tempos em que esses fantasmas não eram vultos, mas pessoas, pessoas de sorriso perolado que produzia pregas nos cantos da boca, de cabelos castanhos quase loiros, quase cobre, esse cabelo tão perfumado, tão sutil de Cecília, cujo cheiro era cheiro de Cecília, um cheiro amargo, cheiro igual a nenhum outro, cheiro de lavanda, de sol da praia de domingo, de travesseiro, de café fresco em tardes chuvosas. Chuva essa que me entristece ao ver o fantasma de Cecília, cujos olhos azuis violetas cinzentos verdes me lembram essa melancolia que é viver sem Cecília. Me apego a essa mulher, mulher das minhas fantasias. O vestido serpenteia, é mulher mulher, de quadris largos, vastos, como montanhas, como vales, como o paraíso. Mas ela não sorri, não olha para os lados, permanece estática, parada no ponto, olhando para o infinito como quem espera, como quem espera o ônibus, o destino. Estava parada no meio do meu caminho, tão triste como eu, tão melancólica como essas tardes. Fazia frio por causa dessa brisa gélida, cafajeste, que fazia seu vestido serpentear e serpenteando andavam os pensamentos que me levavam à Cecília, que me traziam à sua aparição, ah!, como anda Cecília? Cecília casada, com dois filhos e mais um na barriga, semente de outro homem, de outro néctar, com seus peitos caídos, sua maquiagem borrada, debruçada em um fogão e, ainda assim, tão bela quanto em nossas tardes na Lagoa, na praia, no nosso quarto, mas, não, essa não é Cecília!, Cecília anda por aí, sumida pelo mundo, mundo esse vasto, cheio de tardes de chuva, cheio de lembranças de Cecília. Mas Cecília tinha os olhos vivos, de castanho vivo, de castanho alegre, vibrante, mimoso, tão fortes, tão frágeis, tão decididos, como quem olha sempre para frente, como quem busca no horizonte uma resposta, uma sentença, pois Cecília nasceu para o mar e tão bonita ela ficava quando olhava para o mar, quando chorava no meu ombro ou até quando ficava assim estática, com um perna gentilmente se esfregando no calcanhar da outra, vestida com uma camisola longa, larga, assim meio nua, assim meio coberta, porém sempre majestosa, olhando para o mar pela janela do quarto, segurando a xícara de café. Por que me perdi de Cecília?, não, Cecília foi-se embora para encontrar seu horizonte, seus três filhos e seu fogão, me atinando com essas aparições que agora estendem o braço para chamar o ônibus, entram no ônibus, sobem no ônibus e, mesmo olhando através da janela, através dos meus olhos, que firmes e melancólicos do outro lado da rua encaram-na decidida, mágica e estupefatamente, simplesmente não me vêem e vão-se embora, me deixando só, triste e melancólico, pensando humildemente em Cecília, Cecília que tanto amei e que não me abandona.

domingo, 30 de agosto de 2009

Poema indignado

No peito, retumba o coração de vidro
Oco, frágil, vazio.
Nos confins da mente, a raiva dilacera pensamentos
E, dos pensamentos, surge uma raiva de toda gente.
Corpo de pedra,
Cabeça ambulante em corpo sem alma.
Sem alma, sem dores, sem pensamentos.
Desfaz-se em infinitos pedaços
Para, na busca por um lugar nessa terra,
Com si mesmo deparar-se.
Mas sem-coração são os que condenam os indiferentes,
Os racionais, os práticos, os solitários!
São ingênuos que desconhecem as feições da realidade alheia
E que ignoram ou não entendem, estupidamente,
Que basta ver a comprovação de sua humanidade nas letras.
Pois fique dito aos excessivamente sentimentalistas
E até ocasionalmente otários
Que, para toda a cabeça, há um corpo
Ao contrário do corpo, que nem sempre possui uma cabeça.


*Diga-se de passagem que morro de vergonha dos meus poemas. Se é que posso chamá-los até disso....

Só mais um patético desabafo (ou Entre girassóis e quadrados negros)

Tenho nada a dizer. Não para mim mesma, não para vocês. Não vejo palavras pulando serelepes para fora da minha cabeça. Nem amigos imaginários. Eu só respondo ao distante e solitário choro dos desesperados. Dos mortos, dos ressentidos, dos miseráveis: farinha do mesmo saco. Enquanto escrevo, busco uma história para escrever, para pensar sobre, para refletir. Mas nada. Tenho nada. Nada além de letras pobres, orgânicas e aleatórias. Letras que jorram da caneta, mergulham no papel e afundam na minha mente. Letras que não confortam, que não fazem companhia. Elas vêm. Elas vão. Simplesmente se perdem... E eu continuo aqui, desamparada, me encasquetando com o encasquetamento*.

*"Me encasqueto com o encasquetamento", frase que vi numa exposição.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Últimas palavras acerca da insônia

Não fumava por causa das quatro mil toxinas, tampouco pelo câncer. Besteira. Sabia que ia morrer e tinha toda a justificativa para uma existência nessa certeza. Vivia porque ia morrer. Era para si tão orgânico quanto respirar, quanto estender o braço para alcançar a xícara de café no parapeito da janela. Iria morrer, como todos, como tudo.

Não. Não fumava por causa dos dentes. Do amarelado dos dentes. Pensava nisso enquanto admirava a assustadora dentição esbranquiçada e pontiaguda no reflexo de sua janela semi-aberta. Os dentes permaneciam intactos, reluzentes: bastiões de sua [superficial] felicidade. Não combinava com aquele antro de sujeira, descaso e relaxamento. Seus cabelos eram ralos, quase um careca. Sua pele guardava marcas de acne nas bochechas, sua única lembrança da juventude. Ali, debruçado no parapeito da janela, à mercê da friagem que invadia o quarto, buscava se embebedar de memórias de tempos passados, de risadas da infância. Mas essas desapareciam dentro da única certeza que podia contemplar: iria morrer, como tudo, como todos. Um dia.

A busca por uma infeliz profundidade o roubava o sono e o enchia de penúrias. Pois não queria deitar a cabeça no travesseiro sabendo que tudo é feito do mais absoluto nada e procurava, ao abrir incessantemente a geladeira e ao se permitir engolir sem fome uns pedaços de queijo a estourar a validade, preencher um vazio que, em verdade, não existe. Se tudo é feito de nada, então carregava em si o vazio de existir, o que faz da roda roda e do vaso vaso. Tão simples assim. Uma besteira.

Surpreendentemente, ansiava por um cigarro como uma mulher grávida por bananas carameladas no meio da noite. Queria preencher o vazio das mãos, este sim angustiante, assim como preencher o pulmão com veneno e do veneno morrer. Queria morrer naquele instante. Mera curiosidade. Transitar no túnel, mergulhar feliz e sorridentemente em sua luz do fim, livrar-se daquela infelicidade a qual fez condição para sua vida e da qual se ocupa até a morte. Queria por-lhe um fim, pedir prestação de conta. Esperava, do além-vida, um cordial "desculpe pelo transtorno"¹.

Contudo, não negava que sua existência até então era plenamente egoísta e egoistamente existia. Sim, pois, naquele casebre insalubre pintado porcamente de vermelho com tons de amarelo descascado ao lado de mecânicas, quase no topo de uma ladeira de uma infeliz rua - tão infeliz como lhe parecia o céu de São Paulo -, permitiu-se criar um universo inteiramente particular e sombrio. Gozava de sua condição de ser humano e, como todo bom homo sapiens sapiens, alimentava-se das contradições de sua condição de homem e da famigerada pena de si mesmo, essa que, por sua vez, alimenta toda a humanidade.

Diante de sua janela, observando a ladeira na qual habita, as mecânicas fechadas, a meia-dúzia de putas que tagarelavam na esquina, não buscava o auto-conhecimento diante desses pensamentos vis e desconexos. Pas de tout! No que diz respeito a nós mesmos, não buscamos o conhecimento². Jamais, jamais. Não, ele buscava uma espécie de redenção, de libertação que aliviasse sua mente e lhe trouxesse o sono. Porém, na insônia, somente damos asas à nossa verborragia, dando vazão a toda merda que nos constitue e a qual sufocamos atrás de sorrisos, de apertos de mão, de papelada de escritório.

Criar é libertar-se e, sendo o contrário também verdade, tentava criar palavras e filosofias que lhe atribuíssem sentido ou fornecessem alguma esperança. Entretanto, à medida que pensava e filosofava, sentia-se ainda mais ridículo, porque, pensou (e nisso tem toda a razão), se realmente fosse de seu feitio imaginar algo de fato valioso, não deveria fazer disso uma missão, muito menos um objetivo. Não foi forçosamente que a caneta primeiro escreveu "I was born" ou desse espírito que surgiu Lady Macbeth. Pois ela surgiu, não foi criada. Estava cansado demais para escrever.

Foi, então, que percebeu que a verdade não é uma só, universal e absoluta. Ela também se metamorfosea, se tranforma. Ela também é humana.

As unhas coçavam a face quando percebeu, ao se perder nas suas divagações irracionais e idiotas, que São Paulo é, em essência, uma cidade romântica. Dane-se o progresso! Danem-se os automóveis! Sua beleza não está em seu céu, mas seu bilho irradia da silhueta de seus prédios, de seus corpos. Seu clima chuvoso o entope de alegria, pois alivia a memória dolorosa de suas dores narcisísticas. A tristeza torna-se amena diante de uma tristeza mais triste. Queria suforcar-se na sua falta de horizonte, ouvir o som de seus filhos e, com eles, gritar "como é bom estar aqui!". Por um breve e efêmero instante, sentiu saudades do amor.

Imediatamente, entregou-se ao total e inoportuno estado de melancolia, revolveu sua escassa cabeleira com as mãos grossas de unhas porcas, esfregou os olhos com a paixão de um lunático que tenta freneticamente acordar de uma alucinação. Mas a realidade permanecia, em sua frente, tangível, sarcástica e pretensiosa. Pensou, pois bem, que existencialismo é um privilégio burguês e que ele tinha pressa, necessidade de ser. Não podia perder seu tempo, suas energias e suas descargas elétricas cerebrais em pensar no porquê ou como existir, pois essa constante resumia-se, pura e simplesmente, no seu sentimento de mortalidade e na sua avidez por morrer.

Inebriado pela primeira pessoa, desfez-se em agonia e desespero, para ser, naquele momento, uma única palavra: angústia. Angústia humana, sincera e irremediável. Culpa do café.

Eis que chovia em São Paulo.

¹ Frase de um dos livros da série "O guia do mochileiro das galáxias", de Douglas Adams.
² Frase que eu vi em um filme francês, "Um conto de Natal". Foi tirada de um livro que não pude identificar.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Momentum quantinuum

Saem para trabalhar. Na sua hora habitual. As moças caminham lado a lado, frutas verdes indo ao colégio. Na sua hora habitual. Os homens e as mulheres de olhos sonolentos vão para o trabalho, silenciosos, deixando-se levar pelo embalo do ônibus. Na sua hora habitual. As crianças estridentes e felizes, com os olhos semi-serrados, hesitam diante dos portões da escola. Na sua hora habitual. Os senhores de cabelo branco e as damas de cabelo branco andam lentamente, sem temer o tempo, nas orlas, nos parques, pelas ruas. Na sua hora habitual. A cidade acorda, espreguiça-se, levanta-se, com seu céu policromático, seu cheiro indistinguível de café com pão, sua sinfonia de buzinas e vozes. Na sua hora habitual.
Na sua hora habitual, tudo respira, desabrocha, é.
Levanto-me. Na minha hora habitual. Ando, visto-me. Na minha hora habitual. Caminho, canto, como. Danço, grito, vivo, corro. Corro até as pernas fugirem do corpo, andarem sozinhas, a frente, marchando desvairadamente. Meu corpo enlouquece.
Mas o relógio toca, lembrando-me da minha partida. Na sua hora habitual. Relutante, cansada, arrumo-me e vou-me embora. Na minha hora habitual. Lanço-me em direção desse corpo vivo, dessa engrenagem orgânica para, com ela, ser uma só. E uma somente, como sempre, para sempre. Na minha hora habitual.
*Sem paragrafação.

Ponto final.

Inevitável ceder-se às lágrimas quando o corpo cede, a alma se desdobra e a mente divaga. Entre os vultos das calçadas, as perguntas tornaram-se cada vez mais catárticas. Não suportou. Seu mundo é um universo particular.
De fora, notava as trezentas janelas, cada qual com seus móveis, com seus habitantes, suas histórias. Em trezentas partes, vê-se o passageiro, que as observa correr silenciosamente na superfície da janela, fundindo-se com seu reflexo.
O dia pesa nas articulações, manifesta-se no ardor da calosidade dos pés. As unhas sujas, roídas e honestas revelam a dureza do trabalho, os segredos do cotidiano. Mas a resistência resplandece nos olhos fixos e distantes que, ao se perderem na imensidão da paisagem, buscam o extraordinário no conforto das reflexões.
Esse brilho, esse brilho dá vida ao pincel do artista, à sua música, às suas mãos e à sua caneta. Busca esse brilho suave e firme, com o qual sonha, no qual se perde e o qual covardemente lhe escapa.
*Nota: blog sem paragrafação.

Noz

Eu estou morrendo. Devagar, docemente. Cada parte minha está quebrando e desaparecendo. Eu não sou nada além de um coração partido. Sem sentimento, sem simpatia, sem desejo. Estou à mercê do ego inflamado, da solidão atemorizadora, dos ruídos distantes. Não suporto nada, exceto isso, esse sentimento de ser como uma xícara: vazio, redondo. As paredes me engolem enquanto o teto me esmaga com o peso do arrependimento. Porque o sangue está fervendo, o pulso dói e os olhos... Choram. Há alguma satisfação no amor? Talvez redenção no sacrifício. Eu a perdi. Eu... Eu a perdi em desespero. Não posso dar-me o prazer da música. Abrir meu peito em infinitas letras. Pois ela, com seu temperamento ingrato, sua forma flutuante e seu inesquecível gosto de mel, desapareceu - pó. Choro por ela. Choro por minha tristeza: estou em desgraça. Estou sozinho. Amaldiçoado a rastejar pelo resto dos meus dias, vítima das minhas limitações e das minhas amarguras. Não porque o mundo tornou-se louco, enfadonho ou triste. Mas porque se silenciou sem ela.

Gênesis 3, 19

As melhores declarações vêm nos papéis mais ordinários. As melhores novelas e as mais sinceras juras de amor. As mais doces declarações de beijos, os mais terríveis desabafos, as mais dolorosas confissões. Hoje, lembrei de ti. Das nossas conversas. Dos nossos sonhos. Teus desejos, meus medos. Nossa futura vida juntos. O amor dos nossos filhos, a fragilidade dos amantes, a minha vulnerabilidade. Tua partida infame, tua covardia, tua indiferença. Meu rio de lágrimos, meu orgulho ferido, meu abismo. És pó: disco riscado, amor perdido, perdido em mim mesma, dor de mulher. Nas entranhas reviradas, no seio vazio, no choro impiedoso. Na memória relutante dos dias bons. Lembrei-me de ti e te pus nesse papel ordinário, nesse pedaço de guardanapo, nesse dia infeliz. Agora, abandono-te ao vento, lanço-te na imensidão para que, nos confins da minha mente e do meu corpo, retornes ao pó.

sábado, 20 de junho de 2009

Primeiro Poema

E provavelmente o último. Mas, vale, tenho que honrar o propósito do blog. A falta de inspiração me atinge cruelmente, eis o que saiu. Falta-me o talento para a métrica e para as rimas (ricas e de qualquer natureza). Ainda assim, não é de todo o ruim, embora a minha prosa seja mais eficiente. Só, por favor, não sejam duros nos comentários. À bientôt.
Já não reconhecia mais teu espírito.
E teu corpo. E tua fala.
A carne tornou-se fria,
Distante, frígida e morta.
Por quais caminhos anda o amor
Que, antes conosco, agora se foi embora?
Por quais vielas escuras e vazias
Encontra-se o contentamento cuja falta me assola?
Digo-te que não foi culpa da ausência de sentimento,
De ternura, de atração ou de coragem.
Mas pela tua constante e inescrupulosa ausência de verdade.
Mesmo que, diante de todas as dores, não mais me aflijas,
Corrói lembrar a raiva, a mágoa e a tua imensurável malícia
Quando penso que, por ti, ainda morreria.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Casa de cartas

Sua face resplandece na minha memória, com sua pele suave, seu sorriso orgulhoso e sua doçura característica. Os olhos, que transmitiam o mais profundo carinho quando não lampejavam raiva, colorem minhas lembranças e me dilaceram em saudades.
No vazio, as mágoas são esquecidas e os gritos são abafados. As dores transformam-se em risos melancólicos que lacrimejam arrependimentos. E, ao roçar os dedos em suas fotos, busco relembrar a sensação de tatear sua face...
Eis que acordo. Acordo com o remorso de, ao fitar-lhe em carne e osso, perceber que somente sinto que a amo quando imagino que não está mais aqui.

domingo, 10 de maio de 2009

Aos primatas

Malditos sejam, seus infelizes retardatários que regojizam de suas idéias obsoletas. Com suas provas, seus argumentos infalíveis e sua fé inabalável. Com suas verdades supremas, sua visão estreita de mundo e seu progresso utópico. Queimem com seu atraso, com sua vaidade esdrúxula e sua flexibilidade moral. Que seus ossos, seu fígado e sua mente sejam intoxicados por seus tragos e goles de veneno que lhe corrompem o corpo e a alma. Entupam-se de gordura, enlatados e remédios. Vibrem com seus lazeres mecânicos, exaltantes com tanta alienação. Defequem verborréias para aclamar sua tão sofrida auto-estima enquanto passam por regimes de dietas rigorosas e rotinas aeróbicas. Pintem-se diante do espelho, cegos por seu narcisismo e sua insegurança infinita, que, ao excluir o único e o diferente, reduzem-se a réplicas depressivas uns dos outros, incapazes de imaginar, criar e evoluir. Transbordem seu sangue na terra por gotas de petróleo. Enterrem suas vísceras, seus iguais e sua sobrevivência. Sufoquem-se com seus gases poluentes e fiquem à mercê da sede, da fome e de sua própria intolerância. Matem uns aos outros, em busca da concretização sádica de seus interesses fúteis e desejos superficiais. Aplaudam sua hipocrisia intragável, seus valores invertidos e sua incapacidade de serem generosos. Professem a quebra de seus preconceitos e dogmas, somente para se fazerem superiores a tudo e a todos. Plastifiquem-se, para até na forma deixarem de ser humanos. Façam da África o maior shopping de bebês. Mas vão à China com suas críticas construtivas, sua multidão de primatas! Prepotentes machistas reacionários cartesianos, afoguem-se na sua própria merda! Apreciem o declínio de seus sistemas e de suas falácias comerciais. Testemunhem a decadência de seus sofismos, de suas virtudes e de sua grandeza. Cedo, não haverá espaço para vocês.

O melhor encanto

A música repete-se incansavelmente pelo quarto recém-adormecido. A madeira estala, enquanto os raios gritam. O mundo desaba ao som de trovoadas, mas, aqui, tudo é doce e melancólico, como o contrabaixo de uma música de Charles Mingus ou um verso de Vinícius de Moraes.
Com medo da tempestade, agarro-me a ti, cobrindo minha face com os lençóis. Escondo meus pés entre tuas pernas, a fim de protegê-los do frio. Tua pele é quente, sempre quente, como o hálito que sopra na minha nuca, toda vez que me abraça para dormir.
No chão, os livros que não cabem mais nas estantes. Nas estantes, as fotos dos amigos e das viagens. O telefone vermelho estilo John Kennedy encontra-se perdido por entre taças e peças de jogos de tabuleiro. Passamos o dia no quarto. Nas paredes, pôsteres de filmes antigos e fotos compradas em brecós que foram tiradas por célebres desconhecidos. Murcho no parapeito da janela, o meu girassol aguarda o retorno do sol. Em nossa escrivana, montanhas de papel engolem o teclado do computador e a máquina de escrever decorativa.
A casa dorme, o céu chora e a terra se espreguiça. Mas nós continuamos acordados, satisfeitos com o silêncio, com a maciez do cobertor e o encaixe dos corpos. No conforto, palavras são desnecessárias.
Meu rosto afoga-se no teu peito, tuas mãos afogam-se nos meus cabelos. Estamos bem. A saudade dos familiares se traduz na gaveta de cartas e de souvenirs de viagens. Na outra, minha coleção de artigos de papelaria mistura-se com tua coleção de cartões-postais. Nosso mundo particular tem paredes verdes, lençóis e toalhas claras e o cheiro do meu perfume de erva doce.
Da segurança de seus afagos, vem o sono. Com o sono, as lembranças de passados longínquos, de travesseiros frios e universos paralelos se desfazem. Finalmente, adormecemos.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Repartição pública

À espera no Purgatório, braços quebrados, tosses roucas, gritos de dor e olhares mudos que, ao ritmo do relógio e dos murmúrios, abarrotam-se com medo e cautela dentro de um submundo.
As luzes piscam no teto baixo e sujo, ao passo que os azulejos encardidos das paredes afligem a quem se vê rodeado por eles. As vozes possuem o tom de indignação, enquanto grávidas, velhas e doentes sem prioridade mantêm-se pacientemente no mesmo lugar. Paredes de papéis amarelados, que guardam em suas linhas histórias de vida, deixam-se apodrecer, obrigando o aterrorizador funcionário a usar uma máscara. Faltou-lhe uma serra elétrica. De fila em fila, dezenas espremem-se em bancos que ameaçam ceder. Dentro de cubículos, sem nem ao menos levantarem-se, médicos insensíveis berram silenciosamente o nome daqueles que só podem ser denominados infelizes.
Para quem aguarda, resta a ansiedade e o nervosismo de se ver diante de tanta desumanidade. Encontram-se em um celeiro, onde todos os tipos de animais – burros, cavalos, vacas, insetos – são obrigados a suportar. Os rostos negros, pardos, brancos de olhos azuis, velhos ou jovens registram a verdadeira natureza humana: ínfimo dejeto de uma força superior que aqui não se encontra. Resta a algumas damas e cavalheiros vestidos de enfermos, guardas ou burocratas a realizar trabalhos que não lhe pertencem e pôr as engrenagens para funcionar.
Quem está adoecido, fica ainda mais doente. Quem não está, sente-se doente somente em se encontrar em tal lugar. O calor consome, o ar é rarefeito, o suor expele seu odor natural e o corpo amolece, cedendo às bactérias e ao desespero. Mais fácil é seguir como boi no arado ao som de chibatadas do que testemunhar a vida se perdendo nessas infinitas horas.
Até que, enfim, um rapazinho de seus treze anos, desaventurado por natureza, entrega-se ao descontrole e, gemendo como um bicho ferido, debatendo-se com uma força sobrenatural, corre pelo longo corredor a invadir as fortalezas cúbicas. Os olhares, ainda que surpresos, não escondem uma expressão rotineira de quem assiste pela enésima vez o ato de um espetáculo que se repete.
É possível, ao correr os olhos por este circo de horrores, encontrarem-se faces cansadas e pesarosas, cujo desânimo reflete-se na mais profunda dor. São vítimas desta célula cancerígena que impede que o povo seja gente.
Aqui, o Estado não dá as caras, somente se degusta do seu cinismo intragável. Pois, após os incontáveis segundos de sofrimento, o indigente mira ingênuo, envergonhado e respeitosamente medroso aquele que possui nas mãos sua recuperação, sua saúde e sua vida. Sem lhe fitar nos olhos, o cretino rabisca o papel e dispensa-o, fazendo deste nada além de um cachorro sem dono.
Aliviado, o verme caminha com calma e uma quase felicidade, ignorando os machucados, o desconforto da cirurgia, a garganta esfacelada, o bebê que carrega no útero, o pé que manca, pois de todas as dores, a da humilhação é a pior.
Entretanto, a indignação retorna à boca com gosto de bile quando, ao observar superior e caridosamente os que restam, lê em um cartaz azul e branco, com o brasão do Estado do Rio de Janeiro: “valores: humanização no atendimento, aprimoramento da auto-estima, crescimento funcional e confiança da sociedade em seus serviços.”
Palhaçada, a mais pura palhaçada.
*Perdoem-me a falta de paragrafação, mas o blog anda temperamental.