O sangue escorria pelo ralo junto da água quente. Um caco de vidro perfurava a carne forçando um grito agudo, um sentimento ardente, um desespero quase fatal, quase insuportável. A água da torneira corria louca e o líquido detergente formava uma crosta espumante que cobria toda a pia, toda a louça suja e encardida.
Atônita, correu por todos os cantos, por todos os cômodos à procura de gaze, Mertiolate, como um bicho machucado que grita pelos cantos, foge pelos cantos, correndo estúpida e infantilmente do seu caçador. Enfim, cansada e agitada, sentou no sofá, absorta naquele rio de sangue, naquele mar de sangue que estragava sua roupa, seu carpete, seu sofá de tecido branco para combinar com os móveis escuros e com a parede azul, com as almofadas douradas, com seus lábios que mordiam em desespero, enquanto segurava com uma mão o pulso da mão cortada, fitando-a em estado de susto, de suspense, de dor. Resolveu arrancar de uma só vez o caco imenso, triangular, que perfurava a ferida de maneira covarde, indecente, primeiro vagarosa, depois, ao notar o absurdo da dor, rapidamente, como um band-aid, sem deixar de soltar um último grito de dor dilacerante.
O sentimento de sentir a mão pungente, vibrante, como se o coração estivesse no centro do machucado, como se o coração sangrasse e jorrasse aquele mar de vermelho estúpido, deixando os lábios sem cor, pálidos, ela sentada no braço do sofá branco, tão branca como o sofá, mas aliviada, aliviada com uma dor menor, com uma dor mais humana e reverberante, ao oposto daquela dor febril, surpreendente. Respirou por alguns segundos, esperando que a vivacidade a retornasse, esfregando as costas da mão sã, ainda segurando o caco, a arma, o martírio, na testa fria e suada.
Caminhou para a cozinha, tacou fora aquele infortúnio, lavou suas mãos na pia ensangüentada e espumante, agora de espuma vermelha, espuma maléfica, sem notar o péssimo estado de sua graça, de seus cabelos arrepiados e despenteados de quem acabou de acordar, em sua camisola de Piu-Piu, e resolveu lavar aquela louça suja e nojenta que deixou na noite anterior. Sentia um ódio fulminante, ódio de ter deixado a louça para lavar, ódio de ter cortado a porcaria da mão, porque esfregava com tanta raiva, com tanta indolência aquele copo maldito, aquele copo miserável, aquele copo pobre, fedido de mate, de coca-cola ou alguma asneira da qual se embebedou, um ódio mortal do sentimento de ódio, de esquecer-se das coisas básicas da vida. Borrifou algum remédio que encontrou no banheiro Tenho que fazer a porra de um kit de primeiros socorros!, enfaixou a mão de qualquer maneira e voltou aos afazeres.
Limpou toda a cozinha e terminou de fazer a tarefa entediante de lavar a louça, tarefa que nada produzia, que não a fazia superar a si mesma, que não esticava os limites do próprio ser, da própria espécie, que não criava nada novo, que não forçava do presente a criação de um futuro, de um projeto, de um plano, não tinha futuro nem plano, esses se foram embora, deixando-a desarmada e sozinha, batendo a porta ao som de seus gritos, completamente só. A camisola pouco sensual, pouco bonita, com seus cabelos arrepiados – culpa do tempo ruim -, com os pés descalços naquele rio de sangue que pingava no azulejo frio, rio que secou, que extinguiu com água sanitária, exasperavam tanto ódio, que exagerou a quantidade e fez seus olhos arderem enquanto passava o pano na pia molhada, mas limpa.
Ao terminar, sentiu-se angustiada e fitava estática para os azulejos em sua frente, para a torneira agora brilhante, para a pia limpa, os pratos e os copos reluzentes Preciso de mais copos. e cultivou um susto, uma surpresa por se sentir assim tão odiosa, assim tão inerte, como se não existisse e, de repente, viver tornara-se uma condição, uma necessidade e uma pressa. Sentia pressa em existir, pois não entendia o mundo em sua profundidade, era ela o ovo, ovo de casca quebrada, de mão cortada, de ferida angustiada que teimava em arder, em latejar, pois, sim!, latejava terrivelmente, fazia-se lembrar que existia, que era uma ferida, que a carne estava aberta, estava exposta, que a pia reluzia, que a louça estava devidamente no lugar, que os pés sentiam aquele chão frio de manhã fria, entediada, improdutiva, ferida essa que teimaria em fechar, pois nunca cicatrizou com facilidade, desde garota, desde que bateu com o queixo no chão enquanto corria de pique - esconde. Estática, não se movia, mas sua mente embaralhava com catarses e epifanias, que apareciam freneticamente, ao passo que escutava aquele pingo suave e irritante que surgia da boca da torneira, aquele pingo incontável que marcava os segundos, as horas, que teimava em lembrar que o tempo passava, mas que ela não se movia, ela não se movia, pois não era mais do que o Tempo, não superava o Tempo, não tinha filhos, não tinha mais amante, projeto, futuro, não tinha posterioridade, não superava a si mesma, não produzia, só lavava a louça, lavava o chão, enfaixava a ferida, mas não se enganava: a ferida estava lá embaixo, a carne estava exposta, ela estava nua: nua diante dos azulejos que mostravam um reflexo distorcido de seu rosto pálido e descabelado, rosto, sim, esse, o feitor de todos esses pensamentos vis e catárticos, dessas epifanias inebriantes que a impediam de se mexer, de agir, de reagir e de se conter.
Dirigiu-se mais uma vez ao banheiro, olhou estupefata para aquela imagem deprimente, aquela imagem terrível, aquele monstro do lago Ness, aquele Godzilla fenomenal, aquele ódio e aquele susto que se imprimiam em sua face e faziam uma ruga entre seus olhos. Estupefata, com a boca entreaberta para facilitar a entrada do ar que já não se dava pelas narinas, que já não ficava nos pulmões, mas que levantava e cortava o peito, ar esse frio de uma manhã fria e chão frio, frio que arranhava a garganta, que arrepiava os cabelos, que a horrorizava. Usava um rabo-de-cavalo improvisado, com centenas de fios que pulavam de sua cabeça, parecia que recebera um choque. A mão enfaixada passou a correr seus dedos finos, grandes, de unhas longas pelo lábio rachado, pelo nariz branco e de ponta gelada, pelas mechas de cabelo que fugiam de seu laço, pelos olhos pequenos diante das olheiras roxas.
Não sabia para onde correr, para onde ir e mal tinha certeza do que a olhava, e, achando que iria desmaiar, que iria perder os sentidos, tombar, cair e abrir a cabeça, Mais sangue, cair, olhando tudo rodando, vendo manchas pretas por todos os lados, apoiou-se no armário do banheiro e sentou na tampa da privada, passando a mão enfaixada pela superfície do vidro do boxe do banheiro, buscando de todas as maneiras segurar-se, conter-se, não se permitir fugir do corpo, Estou ficando louca, maníaca, repetia-se, Vou desmaiar, ai, meu Deus, desmaiar, e de fato estava para desmaiar, até que lhe acometeu respirar profundamente, fechar os lábios e obrigar que o ar entre pelas narinas, que o ar fique no pulmão, que ele se expande e assim se expande todo o corpo, dando mais espaço para a alma que teimava em fugir.
Acometeu-lhe uma série de memórias, de quando caiu e machucou o queixo – credo, que aquela dor nunca se sentisse de novo! -, pensando que é melhor essa dor do que o peso do ódio, o peso da raiva e a inércia da vida, mas que a vida ainda assim é melhor do que a morte, melhor do que ver a mãe doente na cama de hospital, com camisola de hospital, com os olhos fixos, imóveis olhando o teto, a boca completamente aberta, como quem não quer ir, como quem se recusava a partir e gritava a se ver atirada naquela luz no fim do túnel, mas já morta, sim, sentia falta da mãe, sentia falta de passos na casa, sentia falta de quando o ódio era amor e sentia amor por tudo, pelos cômodos, pelos móveis, pelo sol que reproduzia um caleidoscópio azul nas suas paredes recém-pintadas, quando se amava descontrolavelmente, quando se havia nascido para amar, para perdoar, para sentir piedade e não aquele ódio, aquele ódio pesado, dilacerante, latejante, aquela ferida desnecessária, Incrível: vive-se com uma pessoa, mostra-lhe o corpo, sua alma, seus sonhos, jura, jura por tudo que é mais sagrado que ama, e perdoa, juro que nunca foi tão feliz, para se tornar passado cotidiano, para jamais revelar que já foi sua, que já amou, deixando-a infeliz, odiosa, quebrando copos e fitando azulejos, sonhando com fantasmas, dores passadas e memórias tristes, perguntando como estão as coisas, E o trabalho?, mas há nada que se compare com esse momento solene de saudade e de raiva, de irritação. Tudo lhe desencanta e se vê diante da linearidade, da estagnação, das tarefas doméstica: mulher, Outro, eu existente que serve para que o homem, o Macho dominador e inescrupuloso encontre a si mesmo, para que ele veja, através dela, algum reflexo de seu interior, de seu fastidioso e prepotente ego, para então dizer adeus, Não está funcionando, eu preciso ir embora, entenda, não é você, não foi você, você me fez feliz, eu fui feliz, mas não sou mais, não sei quem eu sou, Eu não sei o que houve, é que, mas ele sabe bem, ele descobriu através do corpo nu, das paredes azuis, do sofá branco meticulosamente escolhido para combinar com as almofadas douradas, mas tudo isso agora é somente um túmulo, um sarcófago perfeitamente decorado, esperando que ela morra, que se desintegre, que seja tomada pela maldita dor, pelo maldito corte, por milhares, infinitos cacos que perfurem o corpo, a carne e, enfim, assassinem a alma.
Besteiras, besteiras essas que caminham pela mente inerte, sem afazeres, que tenta em vão respirar e prestar atenção somente na respiração, mas que vê em cada canto, em cada azulejo aquele mesmo reflexo idiota e ridículo, aquela mesma camisola pobre e ensangüentada, os cabelos terríveis, as feições terríveis, os olhos pequeninos. Profunda, profunda raiva do mundo que a acomete naquele banheiro, naquele cômodo apertado de toalhas floridas, com seus perfumes, sua caixa de maquiagem, seus produtos de beleza, seus produtos para que se mascare, para que nunca, jamais se revele assim para o mundo, assim tão nua, assim tão desprovida de proteção, assim tão verdadeira e aberta, ainda suja de sangue, ainda completamente ensangüentada, como se o coração tivesse se esparramado pelo chão da cozinha, transbordando todo esse tipo de sentimento e de pensamento que surgiu do nada, ou que, contidos por esse tempo todo, viram no corte uma oportunidade para se revelarem, mesmo que com pouca violência, mesmo que em doses pequenas e homeopáticas, em um copo partido, mesmo que de maneira tão prolixa, tão barata e tão suja, que ela se sentia uma Coisa, um Outro, um abismo incontrolável e dolorido, toda dolorida, era toda Dor, e toda Raiva, e toda um desperdício cósmico de tamanho colossal. Tudo culpa desse mundo cruel e maldito, mundo que teima em não rodar, em não se transformar, que acha trezentos e sessenta e cinco dias rápidos o suficiente e que não compreende a infinitude de um segundo, as proporções de um pensamento, de um fluxo terrível de pensamentos que a sacodem, acometem, como a água quente da torneira da pia e de sua espuma avermelhada.
Não, ela era um fruto do caos, um buraco negro, um ovo de casca partida, corrompida, lambuzada de sua própria gema. Tanto o que fazer e nenhuma energia para realizá-lo, nenhuma energia para levantar, pois o ódio, o búfalo senta em seu peito, impede-a de se levantar, de reagir, de se reerguer: a toma por completo, a imobiliza, corta a respiração e teima em arder, arder loucamente naquela ferida ainda viva, naquela ferida ainda acordada, ainda fresca, que manchava a gaze de vermelhidão hipnotizante. Então, aquele desejo absurdo de tombar doente, de ser ela a enferma na cama, de ser acometida por hemorragia, de fugir dessa solidão paralítica, de vê-lo lá, diante da cama, tal qual a órfã ao lado da mãe, pedindo de olhos perdão por seu egoísmo ignóbil, sua alienação perigosa que a fez um dia sentir ódio, que a fez um dia quebrar o copo, pois descobriu que pode, sim, odiar, que pode sim viver de ódio, que o ódio pode fazer com que seu mundo gire, ainda que lentamente, evitando que se tombe morta logo no primeiro adeus. Mas o ódio também sufoca, mesmo que tenha sido o ódio quem a permitiu viver, porque viver é muito, muito perigoso. Queria ela, insana, ver-se pregada em uma cama, ter aquele sentimento gentil e sutil de se ver partir e, diante da Morte e da Morte somente, redescobrir o perdão e a piedade, dar a alma toda a vazão, dar-lhe a eternidade para se espreguiçar, para se expandir e existir livremente, sem ater-se em ser o Outro, em ser o corpo, o objeto, o sexo, a nudez descabelada, a ferida latejante, o reflexo repulsivo nos azulejos.
Mas tudo isso é demais, é abundante e a realidade se apronta, bate na porta e teima em entrar. Merda! Olha a hora!, acorda de susto da mesma maneira que de susto se viu adormecida e, esquecendo-se da dor, retoma o ritmo da rotina, convencida de que, na verdade, tudo está bem.
*Releitura do conto da Clarice Lispector, "O búfalo" (que é muito bom).